CHILE

Estância Cerro Guido: hospedagem e experiências na Patagônia chilena


Uma enorme fazenda histórica ao lado do Parque Nacional Torres del Paine se adaptou ao clima e aos novos tempos, aliando conservação e turismo, sem deixar de lado a tradição da pecuária e a cultura gaúcha. Nesse pedaço do sul do Chile, eles tentam deixar tudo em harmonia e estão conseguindo, principalmente com os dados de pesquisas realizadas ali mesmo. Neste artigo conto o que fiz hospedada por lá, além dos vários aprendizados e encontros com a vida selvagem.

Em uma das manhãs na Estância Cerro Guido, acordei com o topo nevado da montanha tingido de rosa. Depois vieram caminhadas entre vegetação nativa seca e neve, almoço em um puesto perto da fronteira com a Argentina, histórias de aviador às margens do Lago Sarmiento e quilômetros percorridos em 4×4 sem sair da fazenda. No dia seguinte, aprendi sobre os projetos de conservação e os cachorros ovelheiros. Mesmo assim, vi apenas uma pequena parte da propriedade em dois dias de hospedagem.

Amanhecer na Estância Cerro Guido com montanhas nevadas tingidas de rosa
O amanhecer colore por poucos minutos a paisagem da Estância Cerro Guido, na Patagônia Chilena

O que é a Estância Cerro Guido

São mais de 100 mil hectares de Patagônia particular onde funcionam, ao mesmo tempo, uma fazenda produtiva com gado e ovelhas, um hotel-fazenda, projetos científicos e uma fundação dedicada à preservação. Tudo isso com as Torres del Paine aparecendo eventualmente no horizonte, dependendo das nuvens e da posição, porque do outro lado fica a também famosa Sierra Baguales.

Hoje os três pilares têm a mesma importância: a pecuária, a conservação e o turismo. O elo entre eles é a coexistência, uma palavra ouvida algumas vezes por ali. A proposta é encontrar formas para todos compartilharem o mesmo território em equilíbrio. Eu, como turista, pude ver rebanhos, guanacos, emas, cavalos, raposas, tatus, cachorros, condores e diversas aves.

Situada na Região de Magalhães, a Estância Cerro Guido fica a cerca de 100 km ao norte de Puerto Natales e aproximadamente 40 minutos do acesso Laguna Amarga do Parque Nacional Torres del Paine.

A localização é ótima para quem está fazendo uma viagem pela Patagônia chilena e quer conhecer Torres del Paine e ainda viver diversas experiências exclusivas para os hóspedes na fazenda. Na Booking.com tem avaliação Fantástico.

Vista para as torres do restaurante da Cerro Guido
Restaurante da Estância Cerro Guido (Crédito: Divulgação Estancia Cerro Guido)

Antes da estância, muitas histórias

No meu quarto tinha um livro lindo contando o passado da Cerro Guido e aqui vai um breve resumo do que achei mais interessante no “Estancia Cerro Guido: Patagonia en continua evolución”. 

Indígenas já percorriam os vales, rios e montanhas dessa parte da Patagônia muito antes da fazenda existir. Pesquisas arqueológicas registraram presença humana na área há milhares de anos, e os Aónikenk (também chamados de Tehuelches ou Patagones) conheciam profundamente o território. Eles se deslocavam em busca de caça e recursos naturais a pé e a cavalo.

Sierra Baguales tinha também uma dimensão simbólica: suas formações rochosas estavam relacionadas às crenças transmitidas por gerações. Até o cerro que dá nome à estância preserva a história. Com 1.298 m de altura, o Cerro Guido, ao lado da sede, abriga um antigo sítio funerário associado aos Aónikenk. As pesquisas encontraram sepultamentos entre pedras e pequenos objetos, possivelmente deixados como oferendas.

No final do século XIX, a expansão da criação de ovelhas mudou radicalmente a paisagem. Cercas começaram a cortar a estepe, enormes extensões foram destinadas à pecuária e grande parte dos Patagones acabou migrando para a Argentina.

A Cerro Guido foi fundada como estância em 1920 e se tornou parte de uma gigantesca operação pecuária. Sua localização também serviu de apoio para pesquisadores, montanhistas e pioneiros da aviação. O alemão Günther Plüschow utilizou o Lago Sarmiento como base para voos exploratórios sobre a cordilheira patagônica nas primeiras décadas do século XX.

Recentemente houve novas descobertas. A zona Las Chinas guarda fósseis de plantas e animais que ajudam pesquisadores a entender antigas conexões entre a Patagônia e a Antártica. Ali também foram encontrados fósseis de dinossauros, entre eles o Stegouros elengassen, espécie pequena encontrada entre 2013 e 2015.

Antes disso, a pecuária enfrentou outras transformações, culminando em uma das grandes crises da região: o inverno de 1995, conhecido como Terremoto Blanco. Nevascas intensas causaram perdas enormes de rebanhos de ovelhas. A recuperação da Cerro Guido ocorreu nos anos seguintes: novos proprietários de origem croata restauraram as construções, resgataram o estilo original e abriram a estância para o turismo.

Como foi se hospedar na Estância Cerro Guido

Suíte Cerro Guido
A minha suíte

São 21 suítes distribuídas por antigas casas da estância restauradas, mantendo assim a sensação de propriedade rural. As acomodações atuais são espaçosas, têm calefação, amenidades e todo o conforto esperado de uma hospedagem de alto padrão, mas sem apagar o passado. Os detalhes da decoração em estilo inglês, como uma vitrola tocando música durante o jantar ou ilustrações botânicas nas paredes, além da cultura gaúcha muito presente, vão contando a história do lugar visualmente. 

Além disso, os hóspedes ganham um chaveiro de couro, caderno de anotações e garrafa de água em metal. No quarto também tem erva-mate, cuia, bomba e térmica para usar durante a estadia ou comprar como souvenir.

Os funcionários eram sempre prestativos. Traziam informações sobre o que fazer, todas as noites perguntavam como tínhamos aproveitado o dia. Também ajudavam a adaptar as escolhas conforme o clima. Na Patagônia, isso faz diferença, porque uma programação excelente pode mudar completamente após uma noite de neve, chuva ou vento.

Os guias são essenciais na experiência. A Fernanda demonstrou conhecer profundamente o território, história e rotina da propriedade, inclusive explicando geologia com o próprio corpo durante a trilha. O grupo pequeno deixa espaço para conversas, curiosidades e mudanças de ritmo conforme os interesses dos visitantes. Mas o viajante pode optar por diária privativa com passeios por acomodação.

All-inclusive compartilhado ou privado

A comida foi outro ponto alto. As refeições eram muito bem preparadas e apresentadas, com produtos da região e ingredientes cultivados ali mesmo na horta da propriedade. Cordeiro e drink com calafate não podem faltar; o carré estava se desmanchando na minha boca. Também provei carne de guanaco cozida com batatas. Estava macia e saborosa.

Os programas incluem café da manhã, almoço ou box lanche durante as excursões e jantar. Pela manhã, tem uma área para se servir com castanhas e sementes para levar durante o passeio, excelente para dar energia nas trilhas.

Atividades de aventura, conservação e cultura na Estância Cerro Guido

A estância está aberta o ano todo, mas algumas atividades são sazonais e somente para hóspedes. Em dois dias, durante o inverno, fiz uma espécie de degustação de várias para escrever esse artigo. Ao chegar à hospedagem, os funcionários explicam todas as opções conforme o clima durante a sua estadia. Existem caminhadas, cavalgadas, e-bikes, experiências de conservação, arqueologia, pesca, atividades culturais e roteiros em veículos 4×4. A seguir, o que eu fiz no início de setembro, guiada pela Fernanda que conhece muito bem a região.

Trilha na neve com almoço no Puesto Las Flores

Sierra Baguales é um dos cenários mais impressionantes da propriedade e forma uma fronteira natural entre Chile e Argentina. Só o caminho até lá já dá uma boa noção de isolamento. As construções desaparecem, a estrada é de terra e surgem montanhas de formatos incomuns. 

Ensopado de carne de guanaco com batatas servido na Cerro Guido
Ensopado de guanaco com batatas

Ali fizemos uma trilha até um bosque, atravessamos a ponte sobre um rio congelado e subimos um cerro. Em alguns trechos caminhávamos sobre terra e capim; em outros, resquícios de gelo deixavam claro que havia nevado dias antes. O almoço foi no Puesto Las Flores. Os puestos são pequenas construções rurais espalhadas pelo território. Durante muito tempo, trabalhadores passavam semanas ou até meses isolados nesses pontos, às vezes sozinhos, às vezes com a família, cuidando dos animais e da rotina do campo longe da sede da estância.

Amanhecer na Estância Cerro Guido com montanhas nevadas tingidas de rosa
Protegida do vento gelado na trilha

Caminhada pela Laguna Sarmiento com a história de um aviador

O Lago Sarmiento fica no Parque Nacional Torres del Paine e faz limite com as terras da Cerro Guido. Uma das caminhadas atuais desce pela estepe até sua margem, com uma vista ampla para o Maciço Paine. O percurso completo tem cerca de cinco quilômetros. Mas ali a paisagem é apenas uma parte da história. 

Na margem existem trombolitos, formações criadas por microrganismos relacionados às primeiras formas de vida do planeta. Elas começaram a surgir depois da última era glacial e crescem de forma extremamente lenta, explicou a guia. 

Casa antiga de madeira na fazenda Cerro Guido
Puesto Sarmiento

A experiência também me levou ao Puesto Sarmiento, que hoje é um minimuseu contando a história do aviador alemão Günther Plüschow. Nos anos 1930, ele utilizou a Cerro Guido como base para suas explorações da cordilheira patagônica e as margens do lago como estacionamento para seu hidroavião. 

E assim, cada paisagem tinha outra parte que eu ainda não conhecia.

Rio Las Chinas congelado
Rio Las Chinas congelado

Explorando em 4×4 

Para entender esse enorme território em pouco tempo, principalmente no inverno, algumas partes precisam ser percorridas sobre quatro rodas. Os passeios em 4×4 cruzam setores remotos da estância e existem roteiros que avançam até áreas menos visitadas de Torres del Paine. Um deles passa pelo Valle de Las Chinas, famoso pelas descobertas paleontológicas, e segue em direção à Laguna Azul e outros pontos do setor nordeste do parque.

O mais interessante é ver como a vegetação nativa, rios, áreas de pasto, montanhas e zonas de conservação formam diferentes cenários na mesma propriedade. E dava para parar sempre que algo chamasse atenção, bastava pedir para a guia.

4x4 da Cerro Guido
Parada do 4×4 em frente a Sierra Baguales

Conservação e coexistência

O conflito entre pumas e criação de ovelhas é antigo na Patagônia. Por muito tempo, eliminar o predador foi tratado como uma maneira natural de proteger os rebanhos. Na Cerro Guido estão tentando outro caminho em 2019, com o Projeto Puma. O programa cresceu até dar origem oficialmente à Fundação Cerro Guido Conservación em 2022.

Durante o passeio, mostraram um ninho de condor registrado com câmeras-armadilha para monitorar a fauna. E fui entendendo como pesquisadores acompanham o comportamento dos pumas e cães protetores que vivem junto às ovelhas para ajudar a evitar ataques. Outras estratégias de manejo também são utilizadas para diminuir o conflito e proteger os animais silvestres. Como resultado, os ataques de pumas às ovelhas diminuíram 50% e 2 mil hectares estão protegidos somente para fauna e flora nativas. A área conhecida como La Condonera concentra a maioria dos pontos de observação da vida selvagem na fazenda. Equipados com binóculos, passamos horas procurando o que se movia e houve um momento em que não sabia para onde olhar; tinha um tatu cavando de um lado e uma raposa correndo do outro.

Cães protetores de rebanho na Estância Cerro Guido
Cachorro ovelheiro da Patagônia (Crédito: Divulgação Estancia Cerro Guido / Nicolas Lagos)

As excursões de conservação permitem acompanhar uma parte desse trabalho. Dependendo do programa, é possível sair com pesquisadores, revisar câmaras, observar sinais de fauna e ver os cães protetores em atividade. Nosso grupo teve um pouco de tudo e uma apresentação com gráficos e vídeos lindos gravados na propriedade.

Cultura campeira

Meu contato com a parte cultural foi curto. Tive apenas uma introdução ao preparo do mate e bebi quentão com as pessoas que trabalham ali e vivem a rotina da lida no campo. Me convidaram para voltar durante a estada, lembrando que sempre teria alguém disposto a bater um papo e passar a cuia. A Ana Duék fez o tour cultural completo em outra viagem e conta os detalhes no site Viajar Verde. 

Selas de cavalos organizadas na Cerro Guido
Galpão onde acontece a roda de mate

Como já aconteceu em outras visitas às estâncias na Patagônia chilena, acho esse universo muito parecido com o das fronteiras do Rio Grande do Sul. São os mesmos hábitos, vestimentas e ritmos; só muda o clima realmente extremo e algumas nomenclaturas. Se não sabe, a cultura gaúcha se formou nas regiões de fronteira do sul do Brasil, e meu pai é um gaúcho de verdade, assim como era o meu avô e tantos outros ancestrais; fui criada nessa cultura campeira. Portanto, é tudo muito familiar.

Cavalgadas e e-bikes 

Essas atividades não acontecem durante o inverno por segurança e descanso dos animais. Mas, na viagem anterior, pedalei entre Puerto Natales e Torres del Paine, passando por um trecho da Estância Cerro Guido em direção a Sierra Baguales. Portanto, tenho uma boa ideia de como é incrível percorrer aquela paisagem sobre duas rodas. As opções atuais de e-bike exploram partes da estepe e dos vales da propriedade, enquanto as cavalgadas variam conforme a experiência de quem monta.

A Fundação Cerro Guido Conservación

Por conta da fundação, pumas voltaram a atravessar os campos com mais frequência. Ovelhas continuam sendo criadas. Pesquisadores estudam ambos e coletam informações úteis para melhorar cada vez mais a coexistência. Enquanto isso, trabalhadores mantêm práticas que atravessam gerações e os viajantes têm a oportunidade de observar todo esse processo.

Uma parte da hospedagem também contribui financeiramente com esse projeto: uma doação de US$ 35 por pessoa, por diária, vai para o programa.

Puma na Estância Cerro Guido
Pumas na neve com vista para as Torres del Paine (Crédito: Divulgação Estancia Cerro Guido)

Enfim, Cerro Guido é mais do que um hotel-fazenda que entrou na minha lista de melhores hotéis do Chile. A maior experiência é observar como a Patagônia funciona além dos parques. E, pela primeira vez após três viagens à região, Torres del Paine estava no horizonte e eu não tinha pressa nenhuma de chegar mais perto.

A hospedagem foi cortesia parte do projeto Winter in Patagonia. E também e.

© Todos os direitos reservados. Fotos e relato 100% originais. Imagens sem marca d’água de Cerro Guido.

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Roberta Martins

Comunicadora, idealizadora deste site, fotógrafa e guia de turismo. Há 20 anos relata suas experiências de viagem focando em cultura e aventura. Saiba mais na página da autora. Encontre no Instagram

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