Viajar para a Luanda de 2005 foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Naquela época, a cidade era a segunda pior capital do mundo no ranking de qualidade de vida, perdendo apenas para a capital do Iraque e não era para menos… A cidade era o reflexo de um país destruído que havia acabado de sair de uma guerra civil que durou 25 anos!

Vista aérea de Luanda
Vista aérea
Angolanos e o seu patriotismo
Angolanos e o seu patriotismo
Esgoto a céu aberto em Luanda
Esgoto a céu aberto

Luanda Pós Guerra

Por Augustin Caceres ℹ︎

As opiniões expressas pelos viajantes colaboradores são próprias e nem sempre refletem o pensamento do Territórios. Conheça o autor ou deixe um comentário.

É acolhedor viajar pelas outras ex-colônias portuguesas. Ver os diferentes sotaques, as formas similares de cultura e a alimentação. É impressionante como os portugueses conseguiram ir a um país tão grande repleto de tribos tão diferentes e fazer com que todos falassem seu idioma, adotassem o sistema de vida europeu e se convertessem ao catolicismo. E agora, independentes e com o retorno da paz, Angola vem crescendo como nunca, a taxas de 20% ao ano, sendo que os brasileiros estão entre os principais parceiros nesse processo de reconstrução.

Por dentro dos edifícios
Por dentro dos edifícios

Já sou acostumado a ver misérias e favelas, mas é a primeira vez que presencio uma capital tão grande como Luanda inteira povoada por “vilas de emergência” e o mais chocante é ver o centro. Antes da guerra, a cidade era considerada uma das mais bonitas da África, apelidada de Copacabana inclusive. Em 2005, o panorama era bem diferente: com montanhas de lixo, esgoto a céu aberto, edifícios furados por balas de metralhadora e até tanque de guerra abandonado. A grande maioria dos elevadores destes edifícios parou de funcionar e virou poço de lixo. Os edifícios não têm iluminação interna e a única forma de subir são pelas escadas no meio do escuro. É tanta diferença com o que era que todos os postais encontrados à venda são com fotos da cidade nos anos 70.

Av. 4 de fevereiro
Av. 4 de fevereiro

A época de dominação portuguesa foi marcada por maus tratos aos angolanos e muita segregação racial, mas o problema foi que, após a independência, os angolanos entraram em guerra entre si: um lado influenciado pelo socialismo de Cuba e o outro pelo capitalismo da África do Sul.

Lixo no centro
Lixo no centro

O resultado foi um país devastado com o interior tomado por minas terrestres. A capital inchada com imigrantes vindos de todos os lados e que foram ocupando, de forma irregular, todos os edifícios abandonados pelos portugueses foragidos e construindo barracos em todos os espaços possíveis. A cidade hoje tem mais de quatro milhões de habitantes e passa por uma renovação exorbitante, refletindo a alta recuperação de todo país.

Banco Nacional de Angola
Banco Nacional de Angola

Não é necessário dizer que viajar por ali não é fácil. São poucos os hotéis e todos os suprimentos são importados (até água potável). A energia elétrica tem que ser gerada, muitas vezes, através de geradores particulares a gasolina ou diesel, fazendo com que as tarifas das diárias sejam exorbitantes. Luanda é uma das capitais com o custo de vida mais caro do mundo inteiro.

Seguranças armados da pousada
Seguranças armados da pousada

Ficar bem localizado é importante, pois o transporte em Luanda é bem complicado: não há táxis nem ônibus, apenas candongueiros (perueiros). Dirigir é bem confuso: além do engarrafamento, dos automóveis em estado precário e dos vendedores perambulando pelo trânsito vendendo de tudo e até carregando potes de maionese com gelo em bacias apoiadas sob suas cabeças. Ou seja: dirigir é impossível para quem não é local.

Vista do quarto da pousada
Vista do quarto da pousada

Levando tudo isso em consideração, meu colega e eu acabamos aceitando o convite de um cliente e nos hospedamos na pousada da família dele. A boa vontade dele foi ótima, nos reduziu bastante o custo da viagem e era realmente possível ir a pé até o pavilhão da feira onde estávamos expondo os nossos vasos sanitários (sim, fui vender privadas na África). Mas… não sabíamos bem o que nos esperava. O local era uma favela longe do centro. Na porta, havia um segurança com metralhadora onde era necessário pedir para que ligassem o gerador de energia elétrica para poder acionar a bomba d’água e usar o banheiro… Uma experiência curiosa, digamos assim. E isso sem falar no gerente da pousada que ficou sendo nosso motorista e sempre se atrasava horas para nos pegar, isso quando aparecia…

Vendendo privadas na África
Vendendo privadas na África
De carona e barbudo
De carona e barbudo

Para complicar mais, ocorreu uma epidemia de Marburg exatamente nos dias em que estávamos lá. Marburg é um vírus altamente contagiante tipo o Ebola, que estava atacando uma região do país. Ele se espalha de todas as formas possíveis. Por esse motivo, desisti de fazer a barba. Fiquei com medo de ser contagiado pela água. E não foi exagero. Os avisos para se precaver da doença davam medo. Me aterrorizei com dicas do tipo: “coloque o ente querido doente dentro de um saco plástico fechado de forma que os seus vômitos e fezes fiquem dentro do saco”.

Com Sergei no restaurante Espaço Baía
Com Sergei no restaurante Espaço Baía

Além disso, a questão das minas terrestres por lá também é grave. Se precaver delas enquanto dirige pelo interior, faz parte da rotina dos que querem viajar pelo país. Ou seja, estes dez dias em Luanda de 2005 foram complicados. O primeiro dia da feira, por exemplo, foi suficiente para ver que não havia como ir caminhando para a pousada depois das seis da tarde. Chegamos à pousada graças à ajuda da polícia, que nos deu uma carona de camburão, com um detalhe: no meio do caminho, eles algemaram e trouxeram para o camburão um aldrabão* que estava roubando um telemóvel**. Foi super “legal” ficar ali do lado dos policiais com suas metralhadoras e do aldrabão algemado.

Pôr do sol na Ilha do Cabo
Pôr do sol na Ilha do Cabo
Praia da Ilha do Cabo
Praia da Ilha do Cabo

De qualquer forma, a África tem uma energia muito boa e contagiante, apesar das dificuldades do dia a dia. Os angolanos te deixam confuso, mas é um povo de bom coração, são muito expansivos e amam os brasileiros. O melhor de tudo foi bater papo com todos e ver como eles conhecem tudo sobre o Brasil. Morar no Rio de Janeiro é um sonho para muitos, mas foi curioso ver que a cerveja mais conhecida era a argentina Quilmes.

Turismo em Luanda

Para passear, o melhor era conhecer a Ilha do Mussulo, ir à Ilha do Cabo, península que está em frente a baía onde está o hotel Panorama e diversos bares, caminhar pelo centro, que hoje já está bem reconstruído, e visitar a nova Luanda Sul, onde há uma Feira de Artesanato que oferece peças feitas em marfim e madeira de ébano (lindas, mas ecologicamente incorretas).

Trânsito em Luanda
Trânsito em Luanda

Fiquei na vontade, mas não tive a oportunidade de conhecer o interior do país que tem paisagens muito bonitas, com florestas e cânions, além da região desértica, na fronteira com a Namíbia, onde vive aquela tribo das mulheres que usam colares para alongar o pescoço super excêntricos. Fica para a próxima vez, que será em breve pelo que tudo indica…

Baía de Luanda
Baía de Luanda

* ladrão
**celular

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Você está em INICIAL » ANGOLA » LUANDA » Minhas aventuras na Luanda Pós Guerra
Author Augustin Tomas o'Brien Caceres

Criado em uma família onde se falava espanhol, português, portunhol, italiolo e algo de inglês. Sempre se interessou por outros idiomas e hoje mora nos Estados Unidos e trabalha com comércio internacional na LE Group Industries. Siga no Linkedin

10 Comentários

  1. Francisco Velho Responder

    Faço minhas as suas palavras e relatos, estive em Angola em junho de 2005 pela primeira vez e mais três vezes até 2008.
    O que você relatou é o que vivi naquele ano, inclusive sobre o Marbug, a situação da cidade pós guerra.
    Tínhamos um apoio de angolanos, um brasileiro e portugueses para nosso deslocamento, mas ficamos em casas locais.
    Único diferencial é que conheci muitas cidades em Angola no interior: Luena (Moxico), Uíge (Uíge), Huambo (Huambo), Benguela (Lobito e Benguela), Lubango (Huíla), Cabinda (Cabinda).
    Foi a experiência mais impactante em minha vida, tenho um carinho especial pelo povo angolano e ainda quero voltar a fazer um trabalho voluntário em Angola.
    Abraços!!

  2. Daniella Franco Responder

    Achei tri a tua viagem, que baita aventura!
    E adorei o teu relato: pareceu bem sincero e de coraçao.
    Concordo, sim, que muitas caracterisicas de um pais podem mudar em alguns anos – o que nao invalida o teu texto. De qualquer forma, tu deixaste bem claro que teu post retrata uma parte daquilo que tu viveste ha cinco anos.
    Acredito também que as pessoas tem que ter em mente que cada experiencia de viagem é unica. Cada qual tem suas visoes e percepçoes, e é por isso que vale a pena compartilhar nossos relatos de viagens.
    Parabéns pelo texto, mais uma vez!

  3. Muy bueno. Queria ver aquele anúncio sobre os “sinais de que há bombas terrestres nas proximidades”.

  4. Sou Brasileiro e moro em Luanda capital de Angola já à 3 anos, trabalho em uma construtora Brasileira e posso afirmar que já mudou muito com a construção de estradas habitações etc.
    A população ainda sofre com problemas de saneamento, transporte publico,segurança, o transito em alguns locais é caótico, mas a Luanda de 3 anos atraz é bem diferente da de hoje, um forte do povo Angolano são as tradições que crêem mais em curandeiros e feiticeiros do que na ciência, e um homem quando vai pedir uma mulher em noivado tem que pagar uma série de coisas a familia que vai de caixas de refrigerante, cerveja, tecido, roupas e dinheiro. Com tudo isso gosto daqui e me dou muito bem com os Angolanos.

  5. Por favor volte ao país em dias atuias, está mudado, cresceu muito, é óbvio que ainda não é nenhuma Pretória, ainda existe problemas sociais serissimos e as cicatrizes são profundas, mas ainda sim está melhor do que a 5 anos atrás, com certeza sua visão mudará. Todos esses medos de contrair alguma doença, ou pisar em alguma bomba, é tudo extremismo, isso acontece principalmente quando vão brasileiros para la, pois as vezes são tratados como se fossem reis -coisa que eu abomino-, e perdem a sensibilidade de entender as verdadeiras raízes da sociedade angolana. Sou brasileira e viajo todo fim de ano para la, acredite quando digo que a minha visão do país não é deturpada.

  6. Agustin Tomas Caceres Responder

    oi Gabriela! Pelo que tudo indica, devo voltar em breve com o maior prazer e vou escrever sobre os avanços todos. Quero muito voltar! Obrigado pelos comentários.

  7. admiro este povo assim como tantos outros que lutam para cicatrizar feridas horrenda de um passado próximo de guerra e revoluções

  8. Agustin Tomas Caceres Responder

    Mudou basante sim. Quando eu fui, a guerra havia terminado há pouco tempo. As coisas ainda estavam se ajeitando. O pais passou por um desfalque financeiro grande ano passado, mas todos me comentam que não vou reconhecer Luanda hoje em dia. Que cresceu muito felizmente!

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