Passeio de barco pelo Estreito de Magalhães até o Parque Nacional Alberto de Agostini
Madrugamos na Baía de Água Fresca, perto de Punta Arenas. A saída dependia da maré alta para colocar a embarcação na água, e o tempo era curto. Enquanto aguardávamos, os primeiros raios de sol surgiam entre as nuvens. Estava com tantas camadas quentes que nem lembro de ter me vestido assim na vida. E ainda faltava colocar a roupa especial para remar.
Um bote veio nos buscar na praia e nos levou até a embarcação principal da Kayak Agua Fresca, empresa familiar do Cristian Argel, que também foi o nosso capitão. Ele avisou sobre os prováveis minutos tensos de cruzar o Estreito de Magalhães. E foram mesmo, mas duraram pouco tempo com o barco saltando entre as ondas.
Pela janela embaçada, acompanhava as mudanças na paisagem. Na embarcação estava quente, enquanto lá fora o vento era congelante. Era preciso limpar os vidros com frequência. Navegamos próximos ao continente, com ilhas verdes surgindo pelo caminho. Em certos pontos, era possível enxergar terra dos dois lados, dando impressão de estarmos em uma passagem mais estreita.
Durante a travessia, Cristian identificava lugares e contava curiosidades, como Puerto del Hambre, Fuerte Bulnes, o Farol de San Isidro e a Ilha de Nassau. Aos poucos, os picos nevados começaram a surgir, anunciando a Cordilheira Darwin.

Cordilheira Darwin: onde os Andes encontram o mar
Na porção sudoeste da Ilha Grande da Terra do Fogo, a Cordilheira Darwin guarda uma das últimas grandes concentrações de gelo da Cordilheira dos Andes. A cadeia se estende entre o Fiorde Almirantazgo, ao norte, e o Canal de Beagle, ao sul, formando parte do Parque Nacional Alberto de Agostini.
É uma região de montanhas difíceis de alcançar, florestas praticamente intocadas e enormes massas de gelo alimentam os glaciares. Alguns avançam pelos vales até encontrar o mar, enquanto outros terminam entre paredões de rochas ou lagos.
Durante a navegação, Irlanda Rosales, que trabalha com turismo científico, explicou vários detalhes e tirou dúvidas dos passageiros. A geografia é tão recortada que permite contornar trechos das montanhas de barco, entrando por braços de mar cercados por paredões e vegetação. Um desses lugares é o Fiorde de Agostini, onde navegamos no meio dessa paisagem.
A Cordilheira Darwin também guarda uma importante reserva de água doce do Chile. Segundo dados apresentados pela Fundación Glaciares Chilenos, seus campos de gelo estão entre os maiores do país.

Parque Nacional Alberto de Agostini
O terceiro maior parque do Chile, com 1,46 milhão de hectares distribuídos entre ilhas, penínsulas, fiordes e canais da Região de Magalhães e Antártica Chilena. Protege uma das áreas menos modificadas pela presença humana no extremo sul da América do Sul.
O contraste entre os bosques subantárticos, a tundra magalhânica, a turquesa da água e os campos de gelo torna o cenário deslumbrante como pode ver pelas imagens. Entre lengas e montanhas cobertas de neve, vivem diversas espécies de aves e animais marinhos, pena não conseguir ver nenhum nesse dia. O parque integra a Reserva da Biosfera Cabo de Hornos, reconhecida pela UNESCO, junto com outras áreas protegidas do extremo sul chileno.
Quem foi Alberto de Agostini?
O nome do parque homenageia o padre salesiano italiano Alberto María de Agostini, que também era fotógrafo, cartógrafo e montanhista. No início do século XX, dedicou anos à exploração e documentação das paisagens da região de Magalhães. Em 1913, o padre explorou o fiorde que, meses depois, receberia o seu nome.

Navegando entre os glaciares da Cordilheira Darwin
Foi chegando ao parque que o cenário mudou de verdade. Os canais ficaram mais estreitos, as montanhas ganharam muito mais neve e surgia um glaciar após o outro entre paredões de rocha escura. Quem já olhou o extremo sul do Chile em mapas percebe aquele emaranhado de ilhas brancas. Estávamos justamente ali, quase no fim do mundo.
O roteiro pela região inclui lugares como o Fiorde de Agostini, os montes Goodwin, Sarmiento e Sella, além de glaciares como Águila, Escondido e Sorpresa. Mas o itinerário nunca é totalmente garantido; o capitão decide na hora até onde podemos avançar e quais pontos são seguros conforme as condições encontradas no dia. Há muitas outras geleiras e montanhas, porém, nem todas estão identificadas nos mapas convencionais. Passei por diversas paisagens que não consegui reconhecer ao conferir o trajeto no Google Maps.

O que aprendi sobre os campos de gelo
O primeiro glaciar avistado foi o Daineli, no Cordón Navarro. Diferentemente daqueles que tocam o mar, ele fica sobre a rocha, com uma frente abrupta de onde podem cair blocos de gelo em uma lagoa, por exemplo. Há cerca de 20 mil anos, boa parte daquela região estava coberta por uma enorme massa de gelo. Irlanda explicou como as montanhas marcam a passagem do gelo e chamou a atenção para os sedimentos escuros, os materiais transportados pela massa formam depósitos chamados morenas.
A curiosidade do grupo também foi despertada pelo comportamento dos glaciares. Irlanda comentou como alguns apresentam sinais de recuo, mas ressaltou que ainda faltam pesquisas específicas para determinar com precisão a velocidade dessas mudanças.

O espetáculo dos blocos de gelo flutuando no mar
Nunca havia visto nada parecido!
Primeiro começaram a aparecer pequenas pedras de gelo flutuando. Elas se moviam conforme a correnteza. A água turquesa foi ficando pontilhada de branco. Depois vieram outros pedaços maiores e juntos formavam um manto em movimento sobre o mar. Havia até icebergs.
Foi mágico acompanhar aquele movimento! As pedras passavam ao lado do barco. Nos trechos com maior concentração, os marinheiros precisavam afastar os blocos maiores para evitar colisões. Chegava a escutar o barulho do casco batendo nos pedaços de gelo.

O fenômeno é resultado do desprendimento de parte dos glaciares. É um processo da dinâmica das geleiras, mas as mudanças na quantidade e na velocidade da perda de gelo preocupam. E estávamos no final do inverno! No verão, com temperaturas um pouco mais altas, o comportamento delas pode ser diferente.
Naquele momento, estava tão encantada pelo cenário que as consequências nem passaram pela minha cabeça. E eu já sabia, mas só vendo as imagens percebi o dilema entre a beleza do fenômeno e o que ele representa. Afinal, o derretimento de gelo em diversas regiões do planeta contribui para a elevação do nível dos oceanos, trazendo riscos de inundação para cidades costeiras.

Caiaque e stand-up paddle entre glaciares
O objetivo do passeio era para praticar caiaque ou SUP naquele cenário. Porém, a quantidade de gelo flutuando complicou os planos e era preciso determinar um lugar seguro. Os equipamentos são infláveis, e os blocos de gelo podem perfurá-los. Cristian foi analisando diferentes pontos até encontrar uma área limpa e achou este lugar perfeito.

Havia uma geleira enorme na nossa frente, tão imponente que dava a sensação de estar prestes a despencar sobre nós. Mas ela estava apoiada em rochas, sem tocar a água, e havia uma faixa de areia entre o gelo e o mar. Mesmo assim, não eliminava os riscos. Recebemos instruções para manter distância da praia e remar em grupo.
Antes de entrar na água, colocamos o macacão impermeável, que era como um saco estanque de vestir, cobrindo o corpo dos pés até o pescoço, com vedações nas extremidades. O traje combinado com as camadas térmicas adequadas foi suficiente para suportar o frio congelante.
Optei pelo caiaque por parecer mais estável e difícil de virar. Normalmente, me divirto ao cair na água durante a aventura; o problema ali era a temperatura. Se houvesse um mergulho, estaríamos em águas gélidas, longe de qualquer estrutura de atendimento médico. Melhor não precisar descobrir como seria uma emergência dessas, certo?
Trinta minutos de felicidade no Parque Nacional Alberto de Agostini
Remamos por cerca de meia hora diante de uma geleira, cercada por montanhas e água parada sem vento. Durante a atividade, apareceu um iceberg. Cheguei perto, respeitando os limites de segurança, para observar os detalhes e ver se estava derretendo.
O clima do grupo estava ótimo. Todos sorrindo, tranquilos e aproveitando a leveza da experiência. Eu estava tão relaxada que acabei recebendo uma observação de quem tinha mais experiência com técnica de remada:
“Vais ficar mais cansada depois, porque estás sem postura. Estás relaxada demais!”
E estava mesmo! Para remar corretamente, é preciso manter a postura e evitar sobrecarregar braços e costas. Eu estava curtindo tanto o momento que esqueci desse detalhe e tudo bem.

Mais glaciares e brindes
Após a remada, seguimos navegando para conhecer outros glaciares. Ainda havia tempo para achar um segundo lugar para voltar à água, mas não encontramos nada seguro no dia.
Continuamos até um glaciar maior, ao menos a parte vista na perspectiva do barco. Sua dimensão impressionava, assim como o risco de desprendimento de grandes blocos. O capitão manteve a embarcação a uma distância segura enquanto aproveitávamos a vista e a pausa para um lanche a bordo. Nosso grupo continuava naquele clima de alegria, compartilhando as impressões do passeio ao redor de uma mesa com petiscos.

O céu estava parcialmente encoberto quando o sol apareceu forte, iluminando as montanhas, gerando reflexo e destacando ainda mais os tons do gelo. Mas a aventura ainda não havia terminado.
A volta pelo Estreito de Magalhães
Se na ida tivemos poucos minutos de mar agitado, na volta, as condições se complicaram e demorou bem mais que o previsto. O Estreito de Magalhães mostrou por que navegar nessa região exige muita experiência.
O mar mudou, as ondas ficaram enormes e começaram a atingir a embarcação com força. Em alguns momentos, pareciam engolir o barco. Alguns passageiros ficaram enjoados, enquanto a tripulação trabalhava intensamente para conduzir a navegação o mais confortável possível. Sentada na minha poltrona, observava Cristian e o timoneiro fazendo uma força tremenda para manter o equilíbrio e o leme firme. Os marinheiros precisavam circular pelo lado de fora da embarcação e, quando apareciam, estavam pingando. Mesmo protegidos por trajes impermeáveis, recebiam ondas na cara.
E eu consegui permanecer tranquila e passar serenidade, conforme disseram os companheiros de aventura. A verdade é que já passei por situações semelhantes em alto-mar e, com o tempo, a gente aprende a lidar melhor com essas condições. Não significa perder o receio, mas a vivência ajuda a manter a calma.
Observar o comportamento dos tripulantes também faz diferença. Eram profissionais conhecedores daquela travessia há mais de uma década e eu confiava neles. Além disso, eu não tinha habilidade alguma para ajudar. Ficar nervosa só deixaria o ambiente mais desconfortável para todo mundo.
Meu maior receio continuava sendo ficar molhada e passar frio. Felizmente, isso não aconteceu. Apesar das ondas fortes, permaneci seca e aquecida.
Enfim, sobrevivemos! Inteiros, cheios de adrenalina e com muitas histórias para contar.
Conclusão do destino
Revendo as imagens para escrever esse artigo, encontrei dificuldade em escolher as mais bonitas e isso reforça a opinião que tenho desde a primeira viagem à região. A Patagônia chilena é campeã em beleza natural entre os lugares do mundo já visitados. E esse passeio está entre os mais intensos.
Punta Arenas também oferece outras experiências interessantes, incluindo passeios culturais e atividades de contemplação da natureza mais tranquilas. Em breve conto mais sobre o que fazer por lá no inverno.
Como chegar ao Parque Nacional Alberto de Agostini
Não existem estradas; o acesso é feito por barco, sendo Punta Arenas um dos principais pontos de partida. Como não há instalações turísticas convencionais, a visita depende da estrutura oferecida pelas embarcações. Há passeios de navegação, como o relatado aqui, e cruzeiros de expedição. Porém, nem todos entram nos limites do parque ou passam por todas as geleiras.
Fiz o passeio com a Kayak Agua Fresca (KAF) e recomendo. Além de navegar entre os glaciares do parque, a proposta é a possibilidade de praticar caiaque ou SUP. A experiência evidenciou a importância de contar com profissionais conhecedores da região.

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Quando visitar o Parque Nacional Alberto de Agostini
Pode visitar o ano todo, contudo o clima oceânico subpolar exige disposição para enfrentar o frio, além de possíveis chuvas. As temperaturas médias variam entre -1 e 5 °C, dependendo da época e localização. Entre dezembro e fevereiro, os dias são longos e menos frios, mas as chuvas são mais frequentes e os ventos são muito mais intensos. Já no inverno, as precipitações diminuem e há mais neve. Viajei no início de setembro e foi agradável, com céu parcialmente encoberto. Faz muita diferença vivenciar esse lugar com a luz do sol.

Fotos do Parque Nacional Alberto de Agostini
Com sol entre nuvens, consegui registrar essas fotos.









Dicas para fazer o passeio de barco e caiaque no inverno
É importante se vestir em camadas, começando pela roupa térmica, fleece e peças impermeáveis. Inclusive, luva e gorro.
A cabeça foi a única parte do meu corpo um pouco molhada. Os pingos que caíam do remo atingiam o meu gorro de lã e umedeciam o meu cabelo. Deveria ter escolhido outro material para a touca. Além disso, levei uma blusa quente com capuz, imaginando ser boa para remar. Porém, o traje precisava ficar completamente vedado no pescoço, e o tecido atrapalhava. Fui obrigada a tirar a blusa; pelo menos o conjunto térmico usado por baixo foi suficiente para ficar aquecida durante a atividade.
Se costuma enjoar em barcos, prepare-se para a possibilidade de mar agitado. Nem preciso lembrar que seguro viagem é imprescindível. Faça uma cotação usando o link com cupom de desconto.
© Todos os direitos reservados. Fotos e relato 100% originais. Imagens sem marca d’água são dos companheiros de aventura.
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