A noite no deserto caiu serena e tranquila. Estamos a uns vinte quilômetros de M’Hamid, última cidade antes do Sahara, quase na fronteira com a Argélia. São aproximadamente 18:30 e a escuridão tomava conta de tudo, impiedosamente. Lahcen, nosso guia, armou a tenda perto de uma duna, onde brotava uma grande árvore.

Brasileiros totalmente vacinados (AstraZeneca, Coronavac, Covishield, Janssen, Pfizer e Sputnik V) tem entrada liberada no Marrocos. Deve apresentar teste RT-PCR negativo feito até 48h antes do primeiro embarque. Sem vacina, devem cumprir quarentena de 10 dias em hotel indicado. Todos devem preencher o formulário.

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Sob um céu enfarinhado de estrelas

Por Davi Carneiro ℹ︎

As opiniões expressas pelos viajantes colaboradores são próprias e nem sempre refletem o pensamento do Territórios. Conheça o autor ou deixe um comentário.

Sentia frio. A areia gelada e o vento faziam a sensação térmica despencar. Mas ninguém parece ligar para isso. Tínhamos acabado de jantar uma salada marroquina, cheia de cominho e temperos exóticos. Como Mohamed, nosso cozinheiro, conseguia preparar uma salada tão fresca e saborosa em pleno deserto é para mim uma coisa tão enigmática como os mistérios das Mil e uma Noites.

Salada do Mohamed
Salada do Mohamed
Quase um Berber
Quase um Berber

Atravessar o Sahara é uma experiência diferente de tudo. É como comprar uma passagem direta para outra dimensão. Tudo em volta era incrivelmente vermelho e árido. Quilômetros e quilômetros de securas, dunas, poeiras e redemoinhos de resto de mundo. Caminhei a manhã toda com a nítida sensação de estar em Marte. Só faltava o robozinho da Nasa sair vagaroso detrás de uma daquelas montanhas de areia.

Me encontro deitado num grande tapete persa posicionado estrategicamente à beira da fogueira. Os olhos estão fixos no céu e o mar de estrelas que se abria é algo difícil de descrever. Surreal quanto um quadro do Dali e irreal como um sonho bom. Com certeza, o firmamento mais estrelado que já vi na vida.

Dou até uma de astrônomo:

– Olha lá gente, aquela ali é a constelação da ursa maior…
– Onde?
– Ali, olha só… A primeira estrela forma o olho, a segunda o ouvido,
a terceira a pata…
– Nossa! É mesmo… e aquela ali, parece um camelo…

Sombras amigas
Sombras amigas

Ficamos lá ao ar livre, na escuridão total, admirando aquela infinidade de pontos e luzes. Para completar o clima, os guias tocavam com instrumentos improvisados algumas canções em volta da fogueira. Apesar da letra ser incompreensível, a melodia e o ritmo logo nos envolve. Pergunto a Lahcen sobre o que as músicas falam e ele responde: “muitas coisas … sobre a vida, o deserto, camelos e amores…”

Expedição Sahara
Expedição Sahara
Em cima do dinossauro do deserto
Em cima do dinossauro do deserto

Dou uma olhada 360 graus e não consigo enxergar nada. Em quilômetros, a única luz a desafiar aquele oceano de trevas é a da fogueira. Tudo em volta é escuridão, silêncio, ausência, deserto. Acima de nós, a lua brilhava fina e majestosa, tal qual o símbolo do Islã.

Sob o olhar atento da Ursa Maior,  viajo em pensamentos. Lembro da saída de M’hamid, dos primeiros passos na areia, da “cavalgada” no dromedário, do pôr do sol em meio as dunas e das palavras do Lahcen:

– Meninos, a experiência no deserto é simples… é viver as coisas simples. Você tem que respirar, ouvir o som do vento, colocar o pé na areia, sentir o deserto, sentir a si mesmo… então tenha o seu tempo!

O poema de Vinicius de Morais “Olha aqui Mr. Buster” é dedicado a um americano rico. Segundo Vinicius, Mr. Buster não podia compreender como, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a “Latin America”. Começa assim:

“Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo que o Sr. tenha no quintal de sua casa em Hollywood um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia. Está tudo muito certo, Mr. Buster que o Sr. ainda acabará governador do seu estado. E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas. Mas me diga uma coisa, Mr. Buster. Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:

O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo? ”

Me permito a ousadia de acrescentar:

O Sr. sabe lá o que é admirar um céu enfarinhado de estrelas ?
O Sr. sabe lá o que é ver um pôr do sol em cima de uma duna de
areia?
O Sr. sabe lá o que é escutar música Berber na beira de uma
fogueira?
O Sr. sabe lá o que é caminhar escutando somente sua respiração?
O Sr. sabe lá qual o gosto da salada do Mohamed?

Como diria Lahnce, com seu jeito sereno, impossível.

– Macan musque (Sem problemas em árabe). Tenha o seu tempo, respire. Ouça o som do vento e sinta o deserto. Entre em contato com você mesmo. Viva as coisas simples da vida.

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Author Davi Carneiro

Davi Carneiro é baiano, jornalista, viajante, blogueiro de viagens, aprendiz de escritor e formado no Master de Periodismo de Viajes em Barcelona. Atualmente mora na Romênia. | Siga no Instagram

5 Comentários

  1. Oi Juliana. Tudo bem? Me alegro que tenha gostado do post. Tenho sim o contato do guia que me levou: [email protected]

    Indico muito. Umas amigas foram ao deserto com ele agora em dezembro e adoraram! Mas aviso: a excurssao com ele é bem “Roots” e para pessoas que querem expericias bem autenticas, sem muitos luxos.

    Mas vale demais a pena 🙂

  2. Olá, estou adorando seus relatos sobre o Marrocos. Estou indo pra lá em dezembro e gostaria de saber o nome ou contato da empresa que levou vcs para este passeio no deserto? vc indicaria?? estou com dificuldades de encontrar indicações sobre este tipo de empresas. obrigada, Juliana

  3. Obrigado pelos lindos comentários, Claudia e Marina. A ideia é justamente essa: viajar junto, compartilhar lugares, cores, sensações. Respirar fundo. Obrigado pelos elogios! Fiquei extremamente feliz.

    um beijo e até o próximo texto

  4. Claudia Pedreira Responder

    Davi, estou encantada com a sua narrativa… Fiquei pensando, originalmente, e de uma forma bem convencional, qual seria o objetivo da “caravana”. Haveria uma meta? Que bobagem esperar respostas clichês, diante de um céu de estrelas como descreve. Diante de ouvir a própria respiração. Isso é colocar em prática a expressão ensimesmar, em busca de si mesmo, sem deixar de prestar atenção ao universo à volta… Imagino que a experiência que teve deva ser até mais instigante do que trilhar caminhos mais divulgados pelo mundo, como o de Santiago, onde também se vive e sobrevive com pouco, quase nada. O essencial. Vá saber! O que importa é que viajei junto com vc e virei um pouco berber também. Que bom poder tocar este instrumento, as letras… rs Parabéns pelo texto maduro e sensível! E manda mais!!!

  5. Texto magnífico e de uma sensibilidade incrível!!!! Parabéns!!!!!!!
    “Tenha o seu tempo, respire. Ouça o som do vento e sinta o deserto. Entre em contato com você mesmo. Viva as coisas simples da vida.”

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