Chefchaouen fica ao norte do Marrocos, entre as montanhas do Rif, e se tornou conhecida pelas construções pintadas em diferentes tons de azul. Antes de ler a crônica sobre a chegada inesperada à cidade, veja informações úteis para planejar essa viagem.
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Também chamada de Chaouen e conhecida como Pérola Azul, Chefchaouen se desenvolveu ao redor de uma fortaleza construída no século XV. Hoje, são vielas, escadarias, portas e fachadas pintadas em diferentes tonalidades da cor que tornaram sua medina imediatamente reconhecível.
Além do centro histórico, a localização entre montanhas faz da cidade uma base para conhecer paisagens naturais do Rif por trilhas, rios, cachoeiras e o Parque Nacional de Talassemtane.
Por que Chefchaouen é azul?
Não existe uma explicação única e definitivamente comprovada, a aparência da medina parece resultar de diferentes influências históricas, culturais e turísticas. Uma das teorias associa a pintura à presença das comunidades judaica e andaluz na região. Outra defende a cor como funcional para refrescar e afastar insetos. Há ainda a interpretação de que as fachadas foram intensamente pintadas para reforçar a identidade turística da cidade.
O que fazer em Chefchaouen
Caminhar pela medina azul é o principal programa de Chefchaouen e uma oportunidade de descobrir pequenas praças, lojas, fontes e cenários. Observe o cotidiano dos moradores, os detalhes da arquitetura e até o piso por onde caminha. Para encontrar vielas tranquilas, comece o passeio no início da manhã, quando a luz muda a aparência dos pigmentos e cria tonalidades diferentes do resto do dia.
Turista consciente: ao fotografar pessoas, portas abertas e interiores de casas, peça autorização. Alguns moradores podem cobrar pelo registro.
Os pontos turísticos mais famosos, seguindo uma lógica de direção, são a Grande Mesquita na Praça Uta el-Hammam, o Kasbah de Chefchaouen, Ras El Maa e a Mesquita Bouzafer. Este último exige esforço na subida, compensado pela vista ampla para a cidade. O destino pode ser combinado com passeios pelas montanhas do Rif com atividades na natureza, como trilhas e banhos de cachoeira.
Com mais tempo, vale visitar Akchour, Monte Tissouka e Azilane, no Parque Nacional de Talassemtane. Mas confirme as condições climáticas no período da visita, as chuvas mudam a dificuldade do trajeto e os cenários podem ser bem diferentes do que motivou a ida até lá.
Pechinchar no comércio local
A negociação de preços é comum, mas deve acontecer com respeito. Adianto que dizer ser brasileiro e falar de futebol ajuda. Pergunte o valor antes de aceitar, compare em mais de uma loja e não pechinche por diversão, apenas quando houver intenção real de compra.
Artesanato em tecidos ou couro, pigmentos e objetos de decoração são os produtos autênticos na medina. Entrar em uma loja de tapetes já pode ser uma experiência cultural.
Atividades e tours em Chefchaouen
É possível conhecer o centro histórico por conta própria, mas um guia local pode ajudar a compreender a formação da medina, os detalhes da arquitetura, a cultura do artesanato e diferentes influências culturais da cidade. Para quem procura experiências exclusivas em Chefchaouen, os tours privativos permitem ajustar o horário e o ritmo da visita. Outra possibilidade é produzir a sua própria lembrança em uma oficina de marroquinaria, onde o participante aprende técnicas de trabalho em couro.
Antes de reservar, confirme o idioma do guia, a duração, o ponto de encontro, o que está incluído e as regras de cancelamento. Leia também as avaliações mais recentes, pois elas ajudam a avaliar se o passeio serve para você.
Roteiro Chefchaouen em 1 ou 2 dias
Um dia inteiro permite conhecer os principais pontos da medina mencionados acima. Passar ao menos uma noite dispõe de mais tempo para caminhar nos melhores horários, início da manhã e no fim da tarde, quando os visitantes de bate-volta deixam a cidade. Também é oportunidade de conhecer os arredores.
Como chegar a Chefchaouen
Não há voos para Chefchaouen. Quem chega de avião desembarca em Tetuão, Tânger, Fez, Casablanca ou Marrakech e completa o trajeto por estrada. O melhor transporte depende do roteiro e do perfil da viagem. Ônibus é a alternativa mais econômica, enquanto o transfer privado evita conexões e deslocamentos extras. Quando dividido em grupo, pode compensar o valor por pessoa. O carro alugado é a liberdade de parar onde quiser, mas precisa planejar o estacionamento ao chegar.
Fez é o ponto de partida mais comum, os ônibus costumam levar pouco mais de quatro horas. A estrada atravessa uma região montanhosa e possui trechos sinuosos para quem sente enjoo, esteja preparado. Tânger é o mais prático pela oferta de voos, fica a menos de 3 horas de Chefchaouen de ônibus.
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Hospedagem em Chefchaouen
A localização da hospedagem interfere na experiência, portanto, avalie distâncias, ladeiras, escadarias e onde carros não entram antes de reservar. Também escolha entre ficar dentro ou fora da medina, dormir no centro histórico facilita os passeios a pé e permite aproveitar as ruas nos horários mais tranquilos. Por outro lado, é ruim para quem viaja com malas pesadas ou tem dificuldade de mobilidade. Hotéis nas áreas externas oferecem acesso mais fácil, acomodações mais amplas e melhor infraestrutura.
Me hospedei fora no Dar Echchaouen, um hotelzinho simples, mas com uma decoração cheia de estilo e seguindo as tradições berberes. No restaurante é possível degustar pratos tradicionais como a sopa do deserto, o iogurte de leite de cabra ou o tajine berbere.
O que e onde comer em Chefchaouen
A culinária ali reúne pratos encontrados em todo o Marrocos e receitas associadas ao norte do país. Além de tajine, cuscuz, saladas, doces, chá de hortelã e preparações com especiarias, procure os pratos a seguir:
Bissara é uma sopa ou creme preparado principalmente com favas secas, alho, azeite e especiarias. Costuma ser servida com cominho, páprica, pimenta ou harissa, principalmente no café da manhã nos dias frios.
Kalinti ou caliente é uma torta salgada feita com farinha de grão-de-bico, óleo, água e ovos (em algumas receitas). É assada e servida quente com cominho, sal e pimenta.
Briouat é uma pequena massa recheada que pode ter versões salgadas ou doces. Entre as mais conhecidas estão as recheadas com pasta de amêndoas, mel, canela e água de flor de laranjeira.
Dica de restaurantes
Estive no Auberge Dardara, perto da entrada da cidade, onde comi um delicioso cuscuz de coelho e vegetais. O local é simples, mas a atenção no atendimento e o cuidado na preparação dos pratos superaram as minhas expectativas. Outra recomendação é o restaurante A Lâmpada Mágica, que oferece uma bela vista da praça central e especialidades marroquinas com elementos decorativos inspirados na “Mil e Uma Noites”.
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Uma crônica de Chefchaouen, a cidade que parece o fundo de uma piscina
As informações acima foram organizadas para ajudar no planejamento da viagem. Mas Chefchaouen também pode ser descoberta pela sensação provocada em quem chegou sem saber exatamente o que encontraria.
Em 2014, o jornalista Davi Carneiro avistou o destino durante uma viagem de ônibus e decidiu parar por ali. A seguir, leia o texto original.
As opiniões expressas pelos viajantes colaboradores são próprias e nem sempre refletem o pensamento do Territórios. Conheça o autor ou deixe um comentário.
Azul índigo, azul cobalto, azul celeste, azul violeta … em Chefchaouen, uma pequena cidade do norte do Marrocos, todas as tonalidades da cor se misturam em uma combinação tão relaxante como fotogênica.

Poucos dias antes do Ramadã, os habitantes de Chefchaouen se dedicam a uma tradição chamada Laouacher. Primeiramente, cada cidadão é responsável por arrumar e limpar sua própria casa; depois todos se reúnem num grande mutirão para pintar de azul e branco os muros, portas e fachadas do destino. É um ritual de purificação; mas tudo acaba virando uma grande festa: são utilizadas cerca de 15 toneladas de tinta e o resultado é uma paleta mágica entre os tons celeste e turquesa por todos os lados.
Eu esperava por uma amiga, que ainda não havia chegado ao país, quando decidi me aventurar sozinho pelas montanhas do Rif. Peguei um ônibus em Fez, cerca de 300 quilômetros dali e fui em direção ao norte. E entre as paradas da estrada cheia de curvas, estava Chefchaouen. Acordei de um longo cochilo e, mesmo de longe, pude ver aquela cidade azul, como uma miragem, em meio à secura marrom do entorno. Fiquei com uma sensação estranha ao despertar no meio da estrada e, ainda sonolento, não saber muito bem se ainda estava acordado ou não.
Era uma parada rápida, mas resolvi descer; mesmo fugindo do roteiro. E foi a partir daí que tive uma das melhores surpresas da minha viagem.

Chefchaouen é irresistível
Naquele lugar cada cantinho se mostrava um alvo fascinante para minha máquina fotográfica; o detalhe das janelas; as ruas estreitas; a cidade antiga; a porta índigo em contraste com a esquadria branca; o gatinho na escada; as paredes da Medina; as crianças jogando ioiô; os velhinhos jogando conversa fora … tudo reluzia em azul dando a impressão de estar caminhando no fundo de uma piscina.
Conversei com alguns locais – que receberam com simpatia e curiosidade aquele viajante solitário – mas ninguém soube explicar muito bem o porquê daquela tonalidade. Uns me contaram que é uma questão prática já que esta cor afugenta as moscas; outros disseram que foram os judeus, que chegaram aqui em 1930, que começaram a pintar as portas e fachadas, substituindo a cor verde do Islã. Seja como for, Chefchaouen é hoje por excelência a “cidade azul”, além de um excelente ponto de partida para conhecer esta zona de montanhas marroquinas.

Acabei descobrindo ao conversar com o Mohamed – um senhor de 63 anos falava espanhol perfeitamente – que a cidade é considerada um local sagrado para os muçulmanos. Ali se encontra o túmulo do santo padroeiro da região, Moulay Abdeslam Ben Mchich Alami, e que sete visitas ao seu túmulo em anos consecutivos equivalem a uma peregrinação a Meca. Soube, também, que aquela região era um núcleo de outra coisa: as localidades ao redor do Rif são os centros de produção de haxixe de todo o Marrocos. Mohamed me explica algo bastante curioso: a plantação de haxixe é uma atividade legal no país e dá trabalho para muitas pessoas; é permitido plantar, mas a sua venda, não e o turista não tem permissão de posse.
Segurança no Marrocos
Apesar da advertência e indicação da Roberta sobre mulher viajar sozinha para o Marrocos, não me senti ameaçado em nenhum trecho da minha viagem. Muito pelo contrário; nas duas vezes que fui de forma independente ao país, tive a sensação de segurança a todo momento seguro em relação a roubos, assaltos ou algo do tipo. A única hora que sempre tentavam me passar a perna era durante a compra de lembranças nos irresistíveis mercados marroquinos. Por isso, uma dica muito importante para todo viajante que planeja ir até o Marrocos: é fundamental saber como negociar os preços; eles regateiam tudo e isso faz parte da cultura marroquina.

E aí, o que achou da cidade azul do Marrocos? Responda nos comentários. Hasta la vista, viajantes.
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3 Comments
Simplesmente maravilhoso. Uma viagem!
Obrigado por comentar e por estar aí, Amélia. Muitas outras aventuras virão!
atenciosamente,
Davi
A curiosidade inata de um bom andarilho,rende belos textos como este,que nos faz viajar junto com o autor.Parabéns!