Diz a lenda que quem sobe um dos picos do Parque Estadual dos Três Picos, na serra do Rio de Janeiro, ganha a cerveja artesanal local como prêmio. Mas a garrafa gelada não está lá no alto. Após conquistar o topo, é preciso fazer o caminho de volta, passar outra noite acampado, descer mais um vale e só então apreciar a exclusiva cerveja Três Picos. Conto como foi participar da Expedição Deuter Pro e como você também pode se aventurar por essa região.
Salinas é zona rural de Nova Friburgo e está nos limites do Parque Estadual dos Três Picos. O parque tem o ponto mais elevado da Serra do Mar (2.361 metros de altura) e a cidade está entre as dez melhores para observar estrelas no Brasil, conforme o Observatório Nacional (ON). Além de ser o berço do montanhismo como contei na Foto da Semana sobre o Dedo de Deus.
Dia 1 – Vale dos Deuses e Cabeça do Dragão
Objetivo: chegar ao acampamento carregando os equipamentos ainda a tempo de subir a Cabeça do Dragão para ver o pôr do sol.
Partimos do Rio de Janeiro rumo a Teresópolis para encontrar o restante do grupo no Refúgio Serra dos Órgãos Expedições, o recanto criativo do nosso guia Ivo Brito. Lá, um café da manhã nos esperava para o momento das apresentações e retoques finais nas mochilas. Todas da Deuter, é claro, pois esse era um requisito para participar da Expedição.

Por volta do meio-dia, a van nos deixou próximo à Fazenda Itatyba, onde começou a trilha a pé até o Vale dos Deuses, local do nosso acampamento. Por duas horas (cerca de 4 km), alcançamos e contornamos o conjunto de montanhas chamado Caixa de Fósforo e Capacete. Apesar da subida (500 metros de oscilação) e do peso da mochila, a caminhada foi leve e agradável pela beleza do caminho e, principalmente, pela troca de energia e informação entre os participantes. Encontramos mais afinidades com um ou outro e ficamos ainda mais fãs da Deuter Brasil ouvindo as histórias contadas pelo Kiko e Topot (representantes da marca por aqui).
Cabeça do Dragão
Com o primeiro objetivo alcançado, deixamos as mochilas no refúgio e fomos subir a Cabeça do Dragão (2.082 metros de altura) com o mínimo de peso e máximo de pressa. Com o horizonte nublado e a hora avançada, Ivo sugeriu ficarmos em uma clareira próxima da montanha. A maioria ficou por ali tomando um mate e fazendo lanche; os mais confiantes foram correndo e completaram a meta do dia (mais 4 km). A volta foi no escuro, com lanternas na cabeça e muita atenção ao caminho.

Chegou a hora de relaxar tomando um whisky de mel em volta da fogueira ou participar do trabalho em equipe para montar as barracas e preparar o jantar. A estrutura da Serra dos Órgãos Expedições surpreendeu com o menu e todo o aparato necessário para preparar a refeição e montar as barracas. Naquele momento percebi como estou desatualizada sobre equipamentos para camping. Enquanto eu trazia meu prato de inox e talheres de plástico dos anos 90, a maioria tinha kits modernos e práticos de silicone.
Dia 2 – Conquista do Pico Menor
Acordei com as conversas animadas dos colegas de acampamento. Normalmente, desperto quando sinto calor no saco de dormir, contudo, iria demorar muito porque havia uma fina camada de gelo cobrindo o solo e a barraca. Quando o sol começou a entrar no Vale dos Deuses, o vapor subiu imediatamente, criando um efeito bonito e difícil de fotografar.
O café da manhã foi especial e deu para entender a animação do grupo. Tinha tapioca doce e salgada feita na hora pelo Kiko, Nutella, café quentinho e até a erva-mate para eu preparar o chimarrão. Eu era a única gaúcha, mas encontrei guias com o mesmo hábito.

Trilha de ida e volta ao Pico Menor
Partimos com a mochila, carregando o suficiente para passar o dia e aguentar o frio nos 2.361 metros do Pico Menor. Após uma descida leve (que deve ser lembrada para guardar energia para o último obstáculo antes de voltar ao acampamento), chegamos a um dos vales mais bonitos da região. Os Três Picos se exibiam iluminados pelo sol da manhã, araucárias se destacam na vegetação e a interferência do homem cria o clima rural com as cercas de madeira.

A partir deste ponto, foi só subida contornando os Três Picos para chegar o mais perto do cume do Pico Menor pela mata. Então veio a parte mais difícil,: subir com o auxílio de cordas, um participante por vez. A subida exigia uma força para a qual eu não estava preparada. O motivo de eu ter ficado três anos sem fazer trilhas pesadas foi uma lesão que pode voltar a incomodar se eu exagerar no esforço. Como senti fisgadas naquele dia, achei mais prudente ir com calma e esperar o pessoal em uma clareira com vista. Aproveitei para lagartear no sol ouvindo os gritos deles, primeiro de sufoco e, depois, de realização.
Na volta, a maioria concordou com a minha decisão porque foi mais difícil do que imaginavam. Já outros disseram que perdi a melhor parte da viagem. Paciência. Teve até pipoca feita na hora e um drone registrando tudo. Fiquei com ainda vontade quando vi o registro em vídeo do Sobrevivencialismo, mas cada um deve conhecer os seus limites e terei outras oportunidades de voltar. O percurso total da trilha foi de 9 km com subidas puxadas, mas o primeiro a chegar ao cume não foi nenhum de nós, e sim um cachorro vira-lata. O bicho vinha correndo atrás do grupo, ultrapassava todo mundo, sumia na mata e logo repetia tudo.
O sol ainda iluminava o acampamento e era o melhor momento para enfrentar o banho gelado. Gritos vinham das duchas, mas o choque térmico foi ótimo para dar uma renovada e me manter aquecida o resto do dia. Sob um céu super estrelado, preparamos em equipe mais um jantar elaborado e curtimos o calor da fogueira com conversas, vinho e cantorias.
Dia 3 – Os refúgios e a Cervejaria Três Picos
Desmontar acampamento e descer até o Refúgio das Águas era o objetivo do dia.
O início do caminho foi o mesmo do dia anterior, com um desvio para conhecer o Refúgio República Três Picos. A opção para quem não gosta de acampar e faz questão de banho quente. O melhor é o visual da sacada e a janelinha com vista para os Três Picos quando senta no vaso sanitário.
Seguimos em direção ao Vale do Jaborandi com subidas e descidas que somaram cerca de 3 km de trilha até o Refúgio das Águas. No caminho, cruzamos com gado, cavalos soltos, encontramos frutas silvestres e nos despedimos dos Três Picos.

Por fim, o prêmio nos esperava no Refúgio das Águas: cerveja artesanal e pizza deliciosa feita na hora. Mas a verdadeira lenda é o proprietário, cervejeiro e montanhista Sérgio Tartari. Isto segundo os escaladores do grupo, porque pouco conversei com ele. Sérgio faz a cerveja ali mesmo com a água das nascentes e somente para degustação e consumo próprio. Ou seja, a cerveja só é encontrada ali por quem percorre as trilhas do Parque Estadual dos Três Picos. O Refúgio das Águas é uma outra opção de hospedagem com banho quente e quarto de casal.

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Aproveito o gancho para recomendar o que levar neste tipo de aventura.
O que levar para acampar em Salinas no outono:
- Saco de dormir e isolante térmico – as temperaturas chegaram a 6 graus na madrugada e eu estava preparada, mas me arrependi de não ter levado um saco de plumas e isolante inflável como alguns levaram. A redução de volume e peso é enorme;
- Lanterna de cabeça – é preciso ter as mãos livres em diversas situações, mas também levei uma lanterna grande e arcaica; todos tinham modelos menores de LED;
- Mochila de ataque de 30 litros – de novo, a idosa do acampamento levou uma que já está fora de linha, porém é a mais confortável que eu já usei até hoje. Tenho uma Transalpine 26L mais nova, mas a Deuter Spectro é clássica;
- Bolsa reservatório de água ou garrafa – levei os dois, Streamer Hydration System da Deuter e garrafa para servir de copo;
- Gorro e luva;
- Protetor solar;
- Tênis de trilha;
- Fleece, segunda pele e agasalhos;
- Camisetas dry fit e calça confortável;
- Copo, prato e talheres de camping – a linha de acessórios da Sea to Summit é a preferida do grupo;
- Higiene pessoal – lencinhos umedecidos e produtos biodegradáveis para os mais fortes tomarem banho gelado;
- Saco estanque para roupa suja e dias de chuva;
- Toalha de microfibra – viajo sempre com uma Sea to Summit Tek Towel por ser leve e secar rápido.
Barraca e alimentos estavam incluídos no pacote da viagem, podem ser necessários conforme o guia contratado.
Não obrigatórios, porém recomendados (eu levei):
- Boné;
- Óculos escuros;
- Protetor labial;
- Bastão de caminhada;
- Corda elástica com gancho e prendedor de roupa;
- Saco estanque para papel higiênico;
- Pochete para ter as mãos livres;
- Baterias extras para os equipamentos, afinal o acampamento não tem energia elétrica.
Como acampar ou ficar em refúgios no Parque Estadual dos Três Picos
Pode contratar diretamente a Serra dos Expedições pelo telefone (21) 97113-8708. Só não vá sem guia porque nem todos os caminhos são sinalizados e alguns trechos são perigosos.
O Vale dos Deuses tem estrutura nova para acampamento, fruto de uma boa gestão no Parque Estadual dos Três Picos. Os responsáveis e a comunidade local cuidam muito bem da região onde vivem ou trabalham. A casa tem uma sala de emergência para deixar equipamentos, banheiros e duchas sem água quente, cozinha com fogão a lenha, prateleira, mesas e pias para uso de qualquer um que chegue para acampar ali. Ou seja, se todos continuarem cuidando, sempre será bom e gratuito.
Quando ir: a temporada de montanhismo no Brasil acontece entre abril e setembro no sudeste. O período é ideal por conta da longa estiagem que ocorre durante o outono e inverno.
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O que é e como participar da Expedição Deuter?
A Expedição Deuter aconteceu de 2014 a 2019 como uma ação para aproximar a marca dos seus consumidores. Em 2017, foi realizada uma edição extra – Expedição Deuter Pro – para atletas, influenciadores digitais e parceiros. Se eu souber de novas edições, aviso por aqui.

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